Toda cerveja tem seu valor

João era um cara tranquilo. Trabalhava de Segunda a Sexta, com muita dedicação, das 8h as 18h, como auxiliar administrativo de uma empresa de advocacia do interior de Santa Catarina.

Considerava seu trabalho um tanto quanto estressante, mas nada que a boa convivência com sua equipe e uma cervejinha esporádica não pudessem resolver.

Toda quarta depois do expediente João participava do happy hour da empresa no Bar da Béra, ao lado de seu local de trabalho. Além disso, todo último Domingo do mês, comparecia religiosamente ao “churrasquinho” de confraternização concedido pelos diretores.

Na hora de escolher o que beber João sempre acompanhava o pessoal e pedia a cerveja mais gelada que houvesse no local. Estivesse em um churrasco, em um bar, ou em um jantar a cerveja era sempre a mesma (aquela geladinha de sempre).

Certa vez, em um happy hour, João notou que seu colega de trabalho estava bebendo algo diferente. Parecia cerveja, mas era mais densa, cheia de espuma, porém com uma cor muito escura para ser uma cerveja, em sua percepção.

Perguntou ao seu colega o que ele estava bebendo, e surpreendeu-se ao ouvir.

– É cerveja, sim! Uma Brown Ale artesanal. Quer experimentar?

João, sem entender o que era o palavrão “bráunêiou”, curioso, bebeu sem hesitar. Aquele momento seria um momento decisivo na vida boêmia de João. Caso não gostasse da nova cerveja, muito provavelmente pensaria algo como “a melhor cerveja, pra mim, é a gelada e o resto é resto”.

Caso gostasse, provavelmente iria virar um entusiasta do que havia acabado de conhecer: cervejas “especiais”. (Já viu nossa dica para bebedores iniciantes de cervejas especiais? Vale a pena! ).

João bebeu, achou interessante, e trocou uma boa conversa com o colega, que o explicou a diferença entre Ales, Lagers, os diversos estilos de cervejas, entre outras coisas (confira, também, nosso post sobre estilos de cervejas).

Naquela mesma noite, por recomendação de seu companheiro de trabalho, João experimentou algumas cervejas de trigo, uma pale ale, e começou a entender um pouco mais sobre aquilo que o amigo tentava lhe explicar.

Ficou um pouco assustado, inicialmente, com o preço, mas logo percebeu que o preço era justo.

Felizmente, hoje João é um empolgado entusiasta cervejeiro, que vive procurando, nas cervejas, novas cores, novos estilos, novos sabores, novos aromas, novas texturas, novas sensações.

Procura por todo um novo mundo que jamais imaginou que pudesse existir em algo tão simples quanto uma cerveja. Há pouco tempo aprendeu a fazer a própria cerveja em casa, e normalmente, quando compra estilos diferentes, não somente bebe, mas também mostra para os amigos, incentivando-os a experimentar.

Quando João vê alguém bebendo aquela cerveja que costumava beber antes de conhecer as cervejas especiais (especiais, ou artesanais, ou como preferirem), diz “Isso não é cerveja! Não é de qualidade! Experimente essa pra você aprender o que é cerveja de verdade!”.

Certa vez, ao defender seu discurso para seu avô – ingenuamente crente de que seu avô não soubesse muito sobre a bebida – João se surpreendeu. Seu avô, bebendo sua “boa e velha geladinha”, discordando da afirmação de João sobre qualidade, disse:

– João, eu não concordo com parte do que você está falando. Você está achando que é o rei da cerveja, é? Pode até ser, mas não é o único. Isso aqui é cerveja também, sim.

Tem qualidade e é uma cerveja muito boa, na verdade. Eu concordo com você em relação ao fato de que as cervejas “artesanais”, “premium”, “especiais”, craft beers, e as caseiras, quando bem feitas, são muito mais eficientes em agradar nossos sentidos, pela riqueza em aromas, sabores, colorações, densidades, texturas, espumas, entre outras coisas.

São realmente fantásticas. Mas o conceito de qualidade não é somente relativo a tudo isso que eu acabei de citar. Se você parar para pensar, nessas cervejas comuns há muita qualidade.

– “Não entendi, avô. Tente me convencer, por favor.” – provocou João, ao passo que seu avô continuou:

– “Eu diria que existem dois grandes grupos de cervejas no mundo. Vou chamar um dos grupos de “cervejas comuns”, e o outro de “cervejas especiais”.

As “cervejas comuns” são essas que encontramos facilmente nos mercados, normalmente produzidas pelas grandes indústrias. As “cervejas especiais” são essas outras variedades, mais saborosas e atraentes, normalmente produzidas por cervejarias menores e mais especializadas.”

– “No grupo das “cervejas comuns”, as indústrias que as produzem conseguem produzir quantidades enormes com uma margem de variação mínima, sem contaminações ou aromas e sabores indesejáveis, atendendo demandas de países inteiros, e vendendo a preços acessíveis à grande maioria da população.

A qualidade está em conseguir esse feito, e ainda conseguir entregar algo potável.”

– “No grupo das “cervejas especiais”, as cervejarias que as produzem optam por produzir em menores quantidades, focando em manter uma vasta gama de estilos, e fazendo cervejas ricas em aromas e sabores custe o que custar.

Beber essas cervejas, realmente, é como receber massagem no paladar. São cervejas sensacionais, mas são um pouco mais caras, e nem todas são fáceis de encontrar. Muitas delas você pode encontrar neste site www.beerkingstore.com.br, que eu recomendo muito!” (vovô esperto, esse!)

– “A grande questão é: toda cerveja tem seu valor. O conceito de qualidade não está somente no sabor, mas também em preço, quantidade, padrão, etc.

Portanto, essa história de menosprezar a cerveja comum, que é o que a grande maioria do povo tem acesso, não está com nada.

Não fossem essas cervejinhas que você diz que “não são cervejas”, muita gente tão apaixonada por cerveja quanto você, no mundo, não teria acesso a essa bebida tão maravilhosa.

Por outro lado, não fossem algumas cervejarias e lojas que procuram oferecer alternativas às cervejas comuns, pessoas que querem coisas diferentes, como você, não teriam a oportunidade de experimentar novos sabores e novas sensações.

Eu mesmo prefiro as artesanais!”

– “Independente das opiniões, gostos e referências de cada um, o que deve prevalecer, é o respeito a todos. Somos todos do mesmo time, não somos? Somos todos cervejeiros! Somos todos reis da cerveja!”

João ficou mudo, e nunca mais falou (mentira…! essa parte é só para “quebrar o gelo”).

FIM

Sem dúvida, as cervejas especiais (englobemos aqui todas essas de microcervejarias do Brasil, importadas de cervejarias famosas que primam pela qualidade no exterior, algumas cervejas premium de algumas grandes cervejarias e cervejas caseiras) são muito mais agradáveis para se beber. Mas…

1) gosto é gosto, e cada um tem um (mesmo dentro das especiais, há uma grande polêmica sobre o que, ou qual é a melhor);

2) cerveja é que nem música: não existe a melhor, ou o melhor estilo. Existe a que mais encaixa com o momento. Portanto quanto mais músicas/cervejas existirem, mais opções teremos para cada momento.

Nós, da beer king, entendemos que é muito importante oferecer alternativa aos amantes da boa cerveja, pois que graça teria, por exemplo, se só existisse um tipo de cerveja no mundo? De uma só marca? De um só fabricante?

A nosso ver, a diversidade ao se alimentar é uma das coisas que influenciam positivamente na qualidade de vida, e explorar todas as possibilidades é o que nos faz feliz. Felizmente, muito provavelmente, deve existir um estilo de cerveja para cada gosto.

Não é por defendermos isso, todavia, que vamos menosprezar aquelas nossas velhas companheiras de sempre… não é verdade? Bebemos todo tipo de cerveja, e há um tipo de cerveja pra cada momento do dia, da vida, do mês, do ano.

Sejam elas puro malte ou não, alemãs, belgas, ou brasileiras, com arroz ou sem arroz, caras ou baratas…  todas são cervejas. O importante é agradar, sob tantos aspectos quanto possível (sabor, aroma, preço, sensação, etc) a quem está bebendo.

Por Ricardo Augusto Grasel Matos, Eng°. Agrônomo, Homebrewer e Sócio  Gestor na empresa beer king.